teve o da moto e os da bicicleta: cinco pessoas, quatro rodas - sem mim e sem as minhas. das pessoas importam três e pras rodas não tenho verso.
o primeiro, contra a lei de trânsito que nem sabe existir, não muito bem acomodado no mesmo banco dos pais - simpáticos cúmplices -, se esgueirava quase dançando por entre os braços do pai e os da moto. por detrás do retrovisor que lhe foi refúgio ao meu olhar, tímido, acho que conhecia o "cucuuuuiz... achooou!" da brincadeira do meu pai quando eu tinha a idade dele. perdi o sorriso que ele não me retribuiu na sinaleira aberta e na fumaça do trânsito dessa capital.
os segundos, que pra mim são irmãos, pedalavam uma bicicletinha tão pequena que me lembrou um mini-pônei. são daqueles que têm no canto da boca o atestado de uma traquinês sem-vergonha.
good morning!, o mais velho ensaiou. sawadee ka, eu respondi. good morning!, o mais novo insistiu. sawadee ka - eu não cedi. o mais novo saltou e ficou pra trás. o mais velho não resistiu ao resmungo de "volta aqui!" e fez o retorno sem dar pisca. me rodearam gargalhando e foram.
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terça-feira, 26 de outubro de 2010
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
minhas quedeminhasnadatêm crianças - bangkok
do cabelo bem preto e fino, no alto do mundo e me olhando firme durante o ínterim que meus passos permitiram à nossa história.
a guarita onde trabalhava quem eu decidi ser o pai era a única testemunha além de mim. falava com força, como que manda; apesar da firmeza que eu imagino nas palavras que não ouvi, tinha no rosto um sorriso de quem está no momento por inteiro. dava alguma ordem deliciosa a alguém que eu sei que emudecia do outro lado da linha.
o topo do mundo uma cadeira e o telefone uma banana, mas a firmeza daqueles olhos fincados bem debaixo da franja retinta era de verdade. o gostoso daqueles dentinhos à mostra, então!
a guarita onde trabalhava quem eu decidi ser o pai era a única testemunha além de mim. falava com força, como que manda; apesar da firmeza que eu imagino nas palavras que não ouvi, tinha no rosto um sorriso de quem está no momento por inteiro. dava alguma ordem deliciosa a alguém que eu sei que emudecia do outro lado da linha.
o topo do mundo uma cadeira e o telefone uma banana, mas a firmeza daqueles olhos fincados bem debaixo da franja retinta era de verdade. o gostoso daqueles dentinhos à mostra, então!
quarta-feira, 12 de maio de 2010
minhas quedeminhasnadatêm -quase- crianças IV
(digo quase porque o lúdico infantil mora na retrogricidade* do cérebro, não no documento)
a primeira do lado de dentro, respirando o ar do meu redor. não me encantou pela beleza do brilho do olhar, tímido por detrás das disformes pálpebras, nem por qualquer clichê conquistador e nem comunicou-se comigo de qualquer maneira. eu é que me comuniquei com ela.
meio quasímoda, impaciente e sozinha pelo corredor, mas e cadê a rodoviária? não vamos? vamos, sim, já estamos chegando...hum, tá.
acomodada novamente no assento que já contava eu ser o terceiro ou o quarto a ocupar a inquieta, cantarolou um nhénhénhé qualquer que me tirou irritada - como tudo que me interrompe a leitura - do meu livro. mordi o rabo ao som do nhénhénhé até me dar por conta de quem nhénhénhéava e por ser ela desirritei, beijei o rabo, fechei o livro.
dancei o nhénhénhé até que a vinte de setembro transformou-se numa montanha-russa escorregadia de chuvisco do meio do outono.
uhuuuuullll!! na esquina em que os que sentem um friozinho na barriga desaproveitam-no em silêncio.
permaneci muda, jurando honrar com um uhuuuull! aquele pedacinho de asfalto divertido na próxima vez.
* retrogricidade vai pro meu coração, bem do ladinho de relapsidão, no topo do rol das palavras que deveriam existir pra todo mundo e não só pra mim.
(digo quase porque o lúdico infantil mora na retrogricidade* do cérebro, não no documento)
a primeira do lado de dentro, respirando o ar do meu redor. não me encantou pela beleza do brilho do olhar, tímido por detrás das disformes pálpebras, nem por qualquer clichê conquistador e nem comunicou-se comigo de qualquer maneira. eu é que me comuniquei com ela.
meio quasímoda, impaciente e sozinha pelo corredor, mas e cadê a rodoviária? não vamos? vamos, sim, já estamos chegando...hum, tá.
acomodada novamente no assento que já contava eu ser o terceiro ou o quarto a ocupar a inquieta, cantarolou um nhénhénhé qualquer que me tirou irritada - como tudo que me interrompe a leitura - do meu livro. mordi o rabo ao som do nhénhénhé até me dar por conta de quem nhénhénhéava e por ser ela desirritei, beijei o rabo, fechei o livro.
dancei o nhénhénhé até que a vinte de setembro transformou-se numa montanha-russa escorregadia de chuvisco do meio do outono.
uhuuuuullll!! na esquina em que os que sentem um friozinho na barriga desaproveitam-no em silêncio.
permaneci muda, jurando honrar com um uhuuuull! aquele pedacinho de asfalto divertido na próxima vez.
* retrogricidade vai pro meu coração, bem do ladinho de relapsidão, no topo do rol das palavras que deveriam existir pra todo mundo e não só pra mim.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
minhas quedeminhasnadatêm crianças III
um ônibus que não o meu também esperava.
na rodoviária suja de não me lembro mais alguns poucos subiram; tantos menos desceram: não me lembro mais não deve ser tão legal assim (garanto o sossego ao meu esquecimento).
mal-acomodadamente enfiada na poltrona não muito anatômica, deixei cair meu pescoço cansado de se segurar. e dessa queda ganhei um presente. um corredor, dois bancos, um vidro, mais um corredor - esse de concreto, entre os ônibus - e outro vidro me separavam dele, que não precisou de proximidade after all. uma mão deformada a tentar passar pelo vidro e pegar naquilo tudo de uma vez! antecedia o olhar ansioso de quem não teve mais do que seis meses para conhecer as coisas. do alto do colo da mãe, trepada naquele ônibus, provavelmente experimentava pela primeira vez como era ver tudo tão de cima.
o olhar freneticamente vago acabou por encontrar o meu sem precisar do esforço de procurar. veio, então, com um lacinho de cetim, cartão com musiquinha e um adesivo cafona de "felicidades" em fonte fantasia, o meu presente: os dois únicos dentinhos que tinha completamente crescidos apareceram para mim e pelos olhos eu soube que aqueles poucos dentinhos eram o maior sorriso que ela tinha para me dar.
um ônibus que não o meu também esperava.
na rodoviária suja de não me lembro mais alguns poucos subiram; tantos menos desceram: não me lembro mais não deve ser tão legal assim (garanto o sossego ao meu esquecimento).
mal-acomodadamente enfiada na poltrona não muito anatômica, deixei cair meu pescoço cansado de se segurar. e dessa queda ganhei um presente. um corredor, dois bancos, um vidro, mais um corredor - esse de concreto, entre os ônibus - e outro vidro me separavam dele, que não precisou de proximidade after all. uma mão deformada a tentar passar pelo vidro e pegar naquilo tudo de uma vez! antecedia o olhar ansioso de quem não teve mais do que seis meses para conhecer as coisas. do alto do colo da mãe, trepada naquele ônibus, provavelmente experimentava pela primeira vez como era ver tudo tão de cima.
o olhar freneticamente vago acabou por encontrar o meu sem precisar do esforço de procurar. veio, então, com um lacinho de cetim, cartão com musiquinha e um adesivo cafona de "felicidades" em fonte fantasia, o meu presente: os dois únicos dentinhos que tinha completamente crescidos apareceram para mim e pelos olhos eu soube que aqueles poucos dentinhos eram o maior sorriso que ela tinha para me dar.
minhas quedeminhasnadatêm crianças II
impotência gelada
os trinta minutos das seis horas de um dia frio, qualquer, me acordaram. meu café com leite tinha o mesmo gosto do de ontem e previa o sabor do da manhã seguinte. o frio me bateu na cara ao encarar a rua e, embora não lembre, sei que gostei. com o sono me tropegando os passos arrastei-me à parada. coloquei-me para dentro do ônibus certo na hora de sempre e sentei-me ao lado de uma janela que escorria frio. não lembro em que ou onde pensava, nem o que me tirou de lá, mas foi aí que enxerguei: franziníssimo, encardido de vida e trânsito.
muito encardimento pra pouca vida...
tinha três bolinhas amarelas, das de tênis, nas mãos.
a sinaleira fechada.
em vermelho eu o vi fazer um sinal da cruz estabanado, com as bolinhas em punho - pequenos. beijou cada uma das três, fechando os olhos com força, como se esperasse estar em um lugar melhor ao abri-los.
não foi dessa vez...
não posso dizer que vi, mas sei que malabarizou sem muita destreza, mecanicamente, provavelmente com olhos esvaziados de quem pensa noutro lugar - aquele de todo abrir de olhos.
eu assisti à cena gotejada do frio que fazia. lá fora.
e tudo ficou verde.
impotência gelada
os trinta minutos das seis horas de um dia frio, qualquer, me acordaram. meu café com leite tinha o mesmo gosto do de ontem e previa o sabor do da manhã seguinte. o frio me bateu na cara ao encarar a rua e, embora não lembre, sei que gostei. com o sono me tropegando os passos arrastei-me à parada. coloquei-me para dentro do ônibus certo na hora de sempre e sentei-me ao lado de uma janela que escorria frio. não lembro em que ou onde pensava, nem o que me tirou de lá, mas foi aí que enxerguei: franziníssimo, encardido de vida e trânsito.
muito encardimento pra pouca vida...
tinha três bolinhas amarelas, das de tênis, nas mãos.
a sinaleira fechada.
em vermelho eu o vi fazer um sinal da cruz estabanado, com as bolinhas em punho - pequenos. beijou cada uma das três, fechando os olhos com força, como se esperasse estar em um lugar melhor ao abri-los.
não foi dessa vez...
não posso dizer que vi, mas sei que malabarizou sem muita destreza, mecanicamente, provavelmente com olhos esvaziados de quem pensa noutro lugar - aquele de todo abrir de olhos.
eu assisti à cena gotejada do frio que fazia. lá fora.
e tudo ficou verde.
minhas quedeminhasnadatêm crianças I
cumplicidade em julho: altruísta
o ônibus parou porque a sinaleira mandou;
em vermelho ela me abanou porque quis: ninguém mandou.
eu de uma janela da parte de trás, ela do canteiro central da rua, olhamos.
olhei calculando a idade dela: bem pouca.
olhamos fundo, uma para a outra, e eu respondi o aceno, sorrindo. ela levantou a cabeça ao longo do braço dado à mãe, que analisava o trânsito sem nos perceber. voltou-se para mim novamente e empurrou os olhos dentro dos meus.
deixou cair a pestana direita.
pisquei de volta.
em tom de desafio, desengonçada, piscou o esquerdo.
cerrei o esquerdo e o direito, um depois do outro, e ela respondeu com mais agilidade em um olho do que no outro: deve ser destra.
o nosso tempo se esgotou em verde.
tomei a iniciativa e levantei a mesma mão do oi para a despedida.
mostrei os dentes.
confidenciou-nos com os olhos, muda, à mãe, que não recebeu o olhar.
sabendo que ainda estávamos sozinhas, deixou sorrir os olhos para me responder.
abanou.
aquilo foi cumplicidade:
anônima, gratuita.
e, quando ela aprender o que é altruísta, concordará comigo.
cumplicidade em julho: altruísta
o ônibus parou porque a sinaleira mandou;
em vermelho ela me abanou porque quis: ninguém mandou.
eu de uma janela da parte de trás, ela do canteiro central da rua, olhamos.
olhei calculando a idade dela: bem pouca.
olhamos fundo, uma para a outra, e eu respondi o aceno, sorrindo. ela levantou a cabeça ao longo do braço dado à mãe, que analisava o trânsito sem nos perceber. voltou-se para mim novamente e empurrou os olhos dentro dos meus.
deixou cair a pestana direita.
pisquei de volta.
em tom de desafio, desengonçada, piscou o esquerdo.
cerrei o esquerdo e o direito, um depois do outro, e ela respondeu com mais agilidade em um olho do que no outro: deve ser destra.
o nosso tempo se esgotou em verde.
tomei a iniciativa e levantei a mesma mão do oi para a despedida.
mostrei os dentes.
confidenciou-nos com os olhos, muda, à mãe, que não recebeu o olhar.
sabendo que ainda estávamos sozinhas, deixou sorrir os olhos para me responder.
abanou.
aquilo foi cumplicidade:
anônima, gratuita.
e, quando ela aprender o que é altruísta, concordará comigo.
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